ARTIGOS DE OPINIÃO
Professores e investigadores do CIDEHUS indignam-se com o desinvestimento das escolas no ensino da História

A entrada em vigor da chamada lei da Autonomia e da Flexibilidade Curricular (Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho) que permite às escolas gerir 25% dos currículos escolares, tem levado diversos estabelecimentos de ensino, em diferentes regiões do país, a reduzir a carga horária da disciplina de História e à consequente perda da sua importância relativa nos currículos. Esta forma de aplicação da flexibilidade curricular é um verdadeiro perigo para a formação das novas gerações. Para além da evidente perda de conhecimentos que esta medida terá nos estudantes, receamos o impacto negativo na formação de valores, identidades, memórias e, sobretudo, no desenvolvimento do espírito crítico dos adultos de amanhã.

A Direção do CIDEHUS

 

MIGUEL MONTEIRO DE BARROS | Presidente da Associação de Professores de História

Porque é que aprender História importa

A redução das horas letivas dedicadas à História encontra-se ligada à desvalorização da disciplina (…) consequência das perspetivas neoliberais então desenvolvidas, centradas no discurso económico e na redução do papel do estado. (…) Práticas que potenciam o raciocínio crítico, (…) como a análise de fontes com perspetivas diversas e contrastantes e a articulação entre passado e presente, deixaram de ocupar o lugar central que deveriam ter. (…) É (…) no tempo que falta para que os alunos aprendam a pensar historicamente (…) que reside a raiz do problema do ensino da História. Aprender a pensar historicamente faz-se analisando, comparando e criticando fontes. Retirando este fator da equação, o que temos? Uma História narrativa de discurso fechado, que a maioria dos jovens se limita a interiorizar, sem questionar, situação refletida nos fracos resultados obtidos por estes nos exames nacionais.

(…) Para enfrentar os desafios das novas realidades virtuais, é absolutamente necessário reforçar o (bom) ensino da História. Não ser capaz de pensar historicamente significa não saber filtrar e interpretar criticamente a informação a que se é exposto, ficando-se mal equipado e permeável à demagogia e à mentira factual, como é o caso das fake news. 

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OLGA MAGALHÃES | Professora no Departamento de Pedagogia e Educação da Universidade de Évora e Investigadora do CIDEHUS-UÉ

Menos horas para a História?

(…) A complexidade do mundo atual sugere que, para que existam cidadãos informados e, sobretudo, capazes de analisar e processar informação díspar e contraditória, capazes de tomar decisões informadas, a História é um instrumento imprescindível. É na aula de História que crianças e adolescentes podem adquirir hábitos de análise e interpretação de fontes, de cruzamento de ideias e de verificação da consistência de argumentos. (…) que se confrontam com a estranheza de outros modos de viver e pensar, (…) que se adquire e exercita o raciocínio histórico (…) problematizando situações e confrontando múltiplas perspetivas.

Adquirir estas competências é um processo longo, que exige investimento de professores e estudantes. (…) Esse processo é incompatível com a sistemática redução de tempos letivos da disciplina de História, (…) sobretudo se acompanhada da manutenção de programas escolares que foram pensados há mais de vinte anos para um número bem superior de horas semanais.

Os documentos legais parecem oscilar entre reconhecer este papel da disciplina (…) e depois, por razões relacionadas com a autonomia das escolas e da gestão da flexibilidade escolar, se retiram tempos letivos a essa disciplina reconhecida como fundamental.  

(…) Sem tempo, a aula de História converte-se provavelmente num monólogo (…) os estudantes são afastados da curiosidade e do interesse pelo conhecimento e descoberta. 

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MANUEL BAIÔA | Professor de História do Ensino Básico e Secundário, doutorado em História Contemporânea e investigador do CIDEHUS-UÉ

História, disciplina em decadência na escola portuguesa

A situação que se vive hoje é o resultado de décadas de desinvestimento no ensino da História. (…) A disciplina de História voltou a perder importância, prevendo-se que, quando a reforma estiver concluída dentro de dois anos, passe a dispor de apenas seis aulas no somatório dos três anos do 3.º ciclo do ensino básico. (…) Para cada ano letivo há uma perda de cerca de 33 aulas, pelo que no conjunto do 3.º ciclo os alunos terão aproximadamente menos 100 aulas de História.

A sociedade portuguesa tem de refletir e decidir se quer continuar a desinvestir na disciplina de História, (…) estaremos a formar certamente cidadãos acríticos e pouco informados sobre a História nacional e internacional.

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JOAQUIM BASTOS SERRA |  Professor de História do Ensino Secundário, doutorado em História e investigador do CIDEHUS-UÉ

História, Humanidades e Flexibilidade Curricular

Num momento em que se assiste aos avanços dos populismos, das democracias iliberais, das “fake news”, do revisionismo dos factos históricos e quando continuamos a ter baixíssimos níveis de participação cívica, não parece sensato diminuir o peso de uma disciplina que tem um papel indiscutível na compreensão do mundo em que vivemos, na consciencialização dos problemas sociopolíticos e na formação cívica dos alunos.(…)

A redução da carga horária da disciplina de História (…) tem óbvios reflexos na forma de trabalhar com os alunos. Por muitas opções que se façam no sentido da gestão parcimoniosa dos conteúdos, existe uma insanável contradição entre a extensão dos programas e os poucos tempos letivos para os lecionar. (…)

Não parece também que a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, que entretanto passou a fazer parte dos currículos do 2.º e do 3.º ciclo, possa compensar ou substituir as aprendizagens feitas nas aulas de História.

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FERNANDO LUÍS GAMEIRO | Professor de História do Ensino Secundário, doutorado em História Contemporânea e investigador do CIDEHUS-UÉ

O declínio da História na formação do cidadão

Observando os horários do ensino básico verificamos que as duas horas semanais no 7º, 8º e 9º ano são manifestamente insuficientes para a formação do aluno. (…)

Melhorar-se-ão os resultados com diminuição da carga horária? (…) Que trabalho de motivação para a disciplina pode um professor fazer com noventa minutos de aulas por semana com pré-adolescentes? Considerado o caráter estruturante da disciplina de história na formação integral do aluno que cidadãos queremos formar? (…)

São estes alunos que, concluído o 12º ano constituem a base de recrutamento para o ensino superior, procurando cursos na área das Ciências Sociais e Humanas e outras. Cidadãos que se pretende sejam capazes de compreender o mundo atual e de nele assumirem uma postura interventiva.

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Publicado em 03.04.2019